Na passada 2ª feira tive oportunidade de ter uma fantástica conversa com uma não menos fantástica amiga. Acerca de um dos assuntos cruzados e com as devidas permissões pedidas faço questão de deixar umas linhas.

Esta minha amiga que sempre conheci como exemplar profissional, encontra-se presentemente e durante os últimos 5 anos a leccionar algumas disciplinas numa universidade portuguesa na área das matemáticas. A sua formação de base não passou pela matemática propriamente dita. Foi aluna de excelência e tem prémios e mais prémios que o provam. Direccionou a sua vida num determinado sentido mas um acaso e uma oportunidade fizeram-na voltar-se para o ensino e ainda por cima em área “estranha”. Não que tenha vindo de uma região do saber tão remota que não falasse a linguagem matemática mas os “tiques”, esses, teve mesmo que os aprender.

Sei que é professora respeitada e admirada pelos alunos e sei igualmente que é muitíssimo requisitada para apoio extra-curricular. Os períodos de atendimento estão permanentemente preenchidos. As salas de aula estão cheias e o número de alunos inscritos é sempre muito próximo do número de alunos a ir ao exame. Sei que tem excelentes percentagens de aprovação no grupo de alunos que tem o prazer de acompanhar.

Perguntei-lhe como explicaria tanto sucesso? Era só e apenas por uma questão de preparação do trabalho? Seria mais um rasgo de brilhantismo? Sorte? A resposta foi, confesso, diferente do que esperava.

- É uma questão de linguagem.

- Como de linguagem? A forma como falas com eles?

- Não como falo exactamente… é mais o tipo de palavras que uso…ou quando as uso.

- Não estou a perceber?

- Como não sou de matemática tive que aprender o “lingo” mas sempre com a sensação de estar a falar uma segunda língua. Como o meu processo de aprendizagem deste palavreado, há 5 anos, coincidiu com as primeiras aulas nesta área, fui aprendendo com eles (alunos).
O engraçado é que por vir de outra área e os “momentos” mais teóricos obedecerem a um rigor de linguagem de que não fazia uso, acabei por desenvolver uma linguagem própria que me deixava a mim avançar na aprendizagem e ao mesmo tempo ir leccionando cada disciplina.
Sabia exactamente onde devia substituir “palavrões” por termos mais familiares. Sabia onde estavam os pontos fulcrais para se entender a matéria porque tinha passado pelo processo de aprendizagem há relativamente pouco tempo. Quando dei por mim estava a falar uma linguagem “diferente” das pessoas que fizeram todo o percurso na matemática. Alguns estão tão embrenhados no tal “lingo” que não conseguem chegar aos alunos.
Sei que há mais gente como eu a observar o mesmo. Gente que vem de outras áreas está a ter mais facilidade de comunicar do que quem cresceu cá dentro.

A conversa seguiu depois noutra direcção mas confesso que aquilo me ficou na cabeça. Quanto mais penso naquela porção da conversa mais acredito que quase diariamente assisto ao mesmo sem nunca ter perdido sequer 5 minutos para perceber porquê.

Quase todos os dias, ao passar um olhar mais ou menos demorado pela geekosfera nacional, fico sempre com a sensação que as melhores fontes de informação não são coincidentes com os mais elevados galardões e certificados geek.

Ao mesmo tempo avalio o crescimento quase uniformemente acelerado do 2.0 Webmania e dou por mim a pensar que uma das razões para o relativo sucesso do projecto é o facto de utilizar uma linguagem pouco ou nada técnica. Naturalmente que estou (ou tenho que estar) por dentro do tal “lingo” mas, à semelhança do que acontece quando falo, não utilizo palavras mais caras tecnicamente, só porque posso. Quero fazer passar a mensagem num fluxo devidamente formatado para a generalidade das pessoas e não para apenas meia-dúzia de iluminados. Vejo demasiada redundância nesta última opção.

Ser - ou parecer - geek e escrever para geeks não é exactamente o que nos faz falta por cá e resultaria apenas na teorização do costume.

A minha formação de base vem da área da bioquímica e da biologia. A última empresa por onde caminhei era da área da biotecnologia e diariamente nos últimos 10 anos lidei mais vezes com “gravatas” do que com outra forma de ser. Quando dei início à aventura do 2.0 Webmania (um outro acaso), tive obrigatoriamente que (re)aprender toda a linguagem, todos os tiques e algumas das manias.

Sei que o 2.0 Webmania está a fazer um belíssimo trabalho de evangelização das mais recentes tecnologias web e a chegar a vários milhares de leitores numa base diária. Como eu sei que temos muitos geeks mas não temos, felizmente, assim tantos, calculo que esteja a pular a cerca há muito tempo e a chegar à casa e aos postos de trabalho/lazer de muita gente menos geek.

Percebi que o mesmo se passa com o Paulo Querido ou com o Marco, pessoas que leio com assiduidade relativa mas com um interesse sempre bem carregado, especialmente quando sobre assuntos acerca dos quais não estou devidamente informado.

Sabem quando e em que quantidade utilizar os “palavrões”. Isso, hoje e cada vez mais, é de importância vital para que a mensagem passe.

Bem sei que os verdadeiros geeks começam finalmente a renegar o 2.0 Webmania e que mais tarde ou mais cedo acabará por ser demasiado mainstream para as listas partilhadas de feeds e lifestreams mas, com isso, viverei eu bem. É sinal que a mensagem está realmente a passar.

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